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Mulher Maravilha
16 maio

Mulher Maravilha

Não é nenhum segredo que o filme Batman vs Superman não agradou muito. Mas um dos pontos altos do imbróglio foi, sem dúvida, o surgimento de Gal Gadot como a Mulher-Maravilha. Na tela, foi o momento em que a platéia finalmente sentiu-se confortável para gritar e aplaudir. Não foi à toa: a atriz, revelada em alguns capítulos da série Velozes & Furiosos, trouxe força e expressão somada à elegância e realeza – exatamente as qualidades que fazem da princesa Diana de Themyscira uma personagem icônica há mais de sete décadas. Em algumas semanas, Mulher-Maravilha, sua primeira aventura solo, chega aos cinemas pelas mão da diretora Patty Jenkins. Lentamente, o que se anunciava como mais um potencial desastre para a DC no cinema (Esquadrão Suicida quase foi o último prego no caixão) soa mais e mais como um triunfo. Acredite, não é ao acaso.

A melhor decisão que os executivos do estúdio fizeram foi fazer de Mulher-Maravilha um filme de época. Ambientado nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial, é uma história de origem que traz todos os elementos clássicos para um bom filme pipoca: a protagonista altruísta, o parceiro malandro, o vilão nas sombras cuja história atravessa a da heroína, ação e humor, tudo amarrado por uma produção esmerada. Mais importante é afastar a trama deste novo “universo estendido DC” que já começou torto, dando à Diana espaço para respirar e ter vida própria, sem se preocupar com conexões e pistas escondidas que conduzam o filme à Liga da Justiça. Até onde sabemos, Mulher-Maravilha é um animal com vida própria. O público, escaldado com o tratamento pouco lisonjeiro a ícones como Superman e Batman, aos poucos vai recuperando a confiança e colocando fé no projeto.

Gal Gadot empresta força e elegância à sua Mulher-Maravilha

Mas não precisa acreditar em mim: acredite nos números. Há poucas semanas, a campanha de marketing da aventura parecia inerte, com trailers datados do ano passado, poucos spots de TV e um carrossel com as mesmas imagens que não entregavam tom, plot nem escala épica. A maré agora mudou. Uma pesquisa do site de venda de ingressos Fandango apontou que 92 por cento de seu público querem ver um filme solo de uma super-heroina. O monitoramente de interesse apontava semana uma estreia com 65 milhões de dólares nas bilheterias – e este número agora alcança 75 milhões, com alguns sites prevendo uma estreia de até 105 milhões. Pode parecer uma soma modesta quando colocada ao lado das estreias de O Homem de Aço (117 milhões), Batman vs Superman (166 milhões) ou Esquadrão Suicida (133 milhões). Mas Mulher-Maravilha traz uma protagonista feminina, algo inédito entre os filmes de super-heróis modernos, em um filme de época.

A melhor comparação aqui está do outro lado da cerca. Em 2011, Capitão América: O Primeiro Vingador abriu com uma bilheteria de 65 milhões de dólares nos EUA, contabilizando 178 milhões em casa e 370 acumulados em todo o mundo. Assim como Mulher-Maravilha, era um filme de época que trazia elos ainda tênues com toda a engrenagem que a Marvel já havia colocado em movimento. No mesmo ano, Thor trouxe um protagonista igualmente retirado de sua zona de conforto e igualmente criado na realeza. A bilheteria de estreia? 65 milhões de dólares. Se permanecer nessa atmosfera, a aventura de Patty Jenkins vai dar um balão no malfadado Lanterna Verde (53,1 milhões na largada/116M total USA/219M mundial) e pode ficar à frente de Batman Begins (48m estreia/205M USA) e de Superman – O Retorno (52M estreia/200M USA). Levando-se em conta que o orçamento de Mulher-Maravilha são modestos (!) 100 milhões de dólares, o filme já sai na dianteira em relação à maioria de seus pares.

O filme toma conta da Times Square, em Nova York

A mudança na percepção sobre o sucesso de Mulher-Maravilha se deve a um fator simples, porém crucial: o estúdio ouviu o burburinho na indústria. Ao contrário das campanhas para Batman vs Superman ou Esquadrão Suicida, o marketing para a estreia da heroina estava tímido, mas experimentou um inchaço nas últimas semanas. A Times Square de Nova York está forrada com imagens do filme. Produtos com a marca da personagem aparecem mais e mais pela internet. A própria Gal Gadot é incansável nas redes sociais para aumentar o buzz em torno do filme. Acima de tudo, o timing é perfeito. Em poucos momentos a cultura pop esteve tão alinhada e aberta a representatividade. Outras marcas poderosas, como Star Wars, não se furtou a abraçar a diversidade e estampou protagonistas femininas em seus últimos filmes, O Despertar da Força e Rogue One. A Mulher-Maravilha sempre esteve à frente de todas elas, como inspiração e como força motriz para o poder das mulheres no mundo da fantasia.

O filme surge depois de incontáveis tentativas de traduzir a personagem das páginas dos quadrinhos para outras mídias. O pilar das adaptações ainda é a série dos anos 70, estrelada pela inigualável Lynda Carter, que como poucas representou a força feminina na cultura pop, e continua sendo referência não só no mundo da fantasia mas do lado de cá da história, emprestando sempre sua voz e sua imagem para causas que impulsionam o empoderamento da mulher – e eu uso o termo sem o ranço que ele tomou recentemente, mas de maneira literal como algo a ser aplaudido. Por um tempo, a Mulher-Maravilha terminou como peça-chave dos projetos animados da DC, seja no seminal Superamigos (e depois em Super Powers), seja nas encarnações mais recentes, como Justice League Unlimited e em sua aventura-solo, lançada em 2009, que deve ganhar um relançamento para coincidir com o filme. A Warner tentou seguir em frente com um filme escrito e dirigido por um Joss Whedon pré-Vingadores (curiosamente, ele agora está com as mãos em Batgirl para o cinema) e, na TV, houve um piloto jamais exibido (ainda bem, era um terror) com Adrianne Palicki no papel-título. George Milller escalou Megan Gale para o natimorto Justice League Mortal, filme que jamais saiu do papel. No Brasil, a princesa de Themyscira tem seu primeiro gibi-solo em décadas. É o momento perfeito para o ressurgimento da Mulher-Maravilha na cultura pop global. O único espinho é a pergunta que não quer calar: e se o filme for um completo desastre? Algo me diz que, em algumas semanas, teremos uma ótima surpresa nos cinemas.

Adrianne Palicki no piloto que não deu certo; Megan Gale no filme que não saiu do papel; e a animação de 2009